Introdução:
Conhecido
pelos estudiosos desde a mais remota Antigüidade, tem sido o Perispírito
identificado numa gama de rica nomenclatura, conforme as funções que lhe foram
atribuídas, nos diversos períodos que duravam as investigações.
No
Vedanta já era mencionado e conhecido como Manu, Manã e Kosha.
No
Budismo esotérico era conhecido por Kama-rupa.
No
hermetismo egípcio surge na qualidade de Ka ou Duplo.
Na
Cabala Hebraica era conhecido como manifestação de Rouach.
Para os antigos hebreus é o Néphesph, levando no seu íntimo o Sopro Divino (Espírito) e seguindo-o em todas as suas vidas.
Para os antigos hebreus é o Néphesph, levando no seu íntimo o Sopro Divino (Espírito) e seguindo-o em todas as suas vidas.
Os
gregos denominavam-no Eidolôn, aparecendo como fantasmas nas evocações das suas
pitonisas e habitando o Aqueronte.
Chineses
e latinos tinham conhecimento da sua realidade.
Pitágoras,
mais afeiçoado aos estudos metafísicos (relativo à metafísica, que segundo
Aristóteles, é o estudo do ser e especulação em torno dos primeiros princípios
e das causas primeiras do ser)
nominava-o Carne Sutil da Alma.
Aristóteles,
na sua exegese do complexo humano, considerava-o Corpo Sutil ou Etéreo.
Os
neoplatônicos, (aqueles que são adeptos do neoplatonismo - corrente doutrinária
fundada por Amônio Sacas em Alexandria), dentre os quais Orígenes, o Pai da
Doutrina dos Princípios, identificava-o como Aura; outros o designavam como
Astroeidê, por apresentar o brilho dos astros.
Tertuliano,
o gigante inspirado da Apologética, nele via o Corpo Vital da Alma.
Proclo
o caracterizava como Veículo da Alma, definindo cada expressão os atributos de
que o consideravam investido.
M.
Maspero, o consagrado orientalista, considerava-o como um Corpo Aéreo,
reprodução exata do corpo físico.
O
Apóstolo Paulo já o chamava Corpo Espiritual, conforme escreveu aos Coríntios (I
Epístola, 15:44), * 15: 44 Semeia-se corpo animal, é ressuscitado corpo
espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual. Denominava-o também
como Corpo Incorruptível; logo depois, na mesma Epístola, Verso 53, 15:53
Porque é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade
e que isto que é mortal se revista da imortalidade. Finalmente, o denominava
como Alma, como podemos constatar na
exortação aos companheiros da Tessalônica (Epístola, 5:23) 5:23 E o próprio
Deus de paz vos santifique completamente; e o vosso espírito, e alma e corpo
sejam plenamente conservados, sobrevivente à morte.
Na
cultura moderna, Paracelso, no século XVI, detectou-o sob a designação de Corpo
Astral, baseado na sua cor prateada e luminosidade própria, refletindo as
pesquisas realizadas no campo da Química e no estudo paralelo da Medicina com a
Filosofia, em que se notabilizou.
Leibnitz,
logo depois, substituindo os conceitos panteístas de Spinoza pela teoria dos
"Átomos Espirituais ou Mônadas" (Substâncias simples), surpreende-o
dando a denominação de Corpo Fluídico.
Alguns
experimentadores contemporâneos designam o Perispírito com o nome de Aerossoma.
Outros
perquiridores, penetrando a sonda da investigação no passado e no presente,
localizando na tecedura da vida humana como elemento básico da organização do
ser.
Perfeitamente
consentâneo (adequado, coerente) aos
últimos descobrimentos, nas experiências de detecção por efluvioscopia e
efluviografia, denominado Corpo Bioplasmático.
O Termo Perispírito - referência em O Livro
dos Espíritos:
*
Encontramos na Introdução de O Livro dos Espíritos (1.857), cap. VI:
"Há
no homem três coisas: 1°, o corpo ou ser material análogo aos animais e animado
pelo mesmo princípio vital; 2°, a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no
corpo; 3°, o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a
matéria e o Espírito.
"Tem
assim o homem duas naturezas: pelo corpo, participa da natureza dos animais,
cujos instintos lhe são comuns; pela alma, participa da natureza dos Espíritos.
"O
laço ou perispírito, que prende ao corpo o Espírito, é uma espécie de
envoltório semimaterial. A morte é a destruição do invólucro mais grosseiro. O
Espírito conserva o
segundo,
que lhe constitui um corpo etéreo, invisível para nós no estado normal, porém
que pode tornar-se acidentalmente visível e mesmo tangível, como sucede no
fenômeno das aparições.
"O
Espírito não é, pois, um ser abstrato, indefinido, só possível de conceber-se
pelo
pensamento.
É um ser real, circunscrito, que, em certos casos, se torna apreciável pela
vista, pelo ouvido e pelo tato.
*
Parte Segunda - Capítulo I:
Perispírito
Pergunta
93. O Espírito, propriamente dito, nenhuma cobertura tem, ou, como pretendem
alguns, está sempre envolto numa substância qualquer?
R.
"Envolve-o uma substância, vaporosa para os teus olhos, mas ainda bastante
grosseira para nós; assaz vaporosa, entretanto, para poder elevar-se na
atmosfera e transportar-se aonde queira".
Comentário
de Allan Kardec: Envolvendo o gérmen de um fruto, há o perisperma; do mesmo modo, uma substância que, por comparação, se
pode chamar perispírito, serve de envoltório ao Espírito propriamente dito.
Pergunta
94. De onde tira o Espírito o seu invólucro semimaterial?
R."Do
fluido universal de cada globo, razão por que não é idêntico em todos os
mundos.
Passando
de um mundo a outro, o Espírito muda de envoltório, como mudais de roupa".
-
Assim, quando os Espíritos que habitam mundos superiores vêm ao nosso meio,
tomam um perispírito mais grosseiro?
R."É
necessário que se revistam da vossa matéria, já o dissemos".
Pergunta
95. O invólucro semimaterial do Espírito tem formas determinadas e pode ser
perceptível?
R."Tem
a forma que o Espírito queira. É assim que este vos aparece algumas vezes, quer
em sonho, quer no estado de vigília, e que pode tomar forma visível, mesmo
palpável".
Capítulo
II:
A
alma
Pergunta
134. Que é a alma?
R."Um
Espírito encarnado".
a) -
Que era a alma antes de se unir ao corpo?
R.
"Espírito".
b) -
As almas e os Espíritos são, portanto, idênticos, a mesma coisa?
R."Sim,
as almas não são senão os Espíritos. Antes de se unir ao corpo, a alma é um dos
seres inteligentes que povoam o mundo invisível, os quais temporariamente
revestem um invólucro carnal para se purificarem e esclarecerem".
Pergunta
135. Há no homem alguma outra coisa além da alma e do corpo?
R.
"Há o laço que liga a alma ao corpo".
a) -
De que natureza é esse laço?
"Semimaterial,
isto é, de natureza intermédia entre o Espírito e o corpo. É preciso que seja
assim para que os dois se possam comunicar um com o outro. Por meio desse laço
é que o Espírito atua sobre a matéria e reciprocamente".
O
homem é, portanto, formado de três partes essenciais:
1º -
o corpo ou ser material, análogo ao dos animais e animado pelo mesmo
princípio
vital;
2º -
a alma, Espírito encarnado que tem no corpo a sua habitação;
3º -
o princípio intermediário, ou perispírito, substância semimaterial que serve de
primeiro
envoltório
ao Espírito e liga a alma ao corpo. Tais, num fruto, o gérmen, o perisperma e a
casca.
Capítulo
III
Da
volta do Espírito, extinta a vida corpórea, à vida Espiritual
A
alma após a morte
Pergunta
149. Que sucede à alma no instante da morte?
R.
"Volta a ser Espírito, isto é, volve ao mundo dos Espíritos, donde se
apartara momentaneamente".
Pergunta
150. A
alma, após a morte, conserva a sua individualidade?
R.
"Sim; jamais a perde. Que seria ela, se não a conservasse?"
a) -
Como comprova a alma a sua individualidade, uma vez que não tem mais corpo
material?
R.
"Continua a ter um fluido que lhe é próprio, haurido na atmosfera do seu
planeta, e que guarda a aparência de sua última encarnação: seu
perispírito".
Separação
da alma e do corpo
Pergunta
154. É dolorosa a separação da alma e do corpo?
R.
"Não; o corpo quase sempre sofre mais durante a vida do que no momento da
morte; a alma nenhuma parte toma nisso. Os sofrimentos que algumas vezes se
experimentam no instante da morte são um gozo para o Espírito, que vê chegar o
termo do seu exílio".
Na
morte natural, a que sobrevem pelo esgotamento dos órgãos, em conseqüência da
idade, o homem deixa a vida sem o perceber: é uma lâmpada que se apaga por
falta de óleo.
Pergunta
155. Como se opera a separação da alma e do corpo?
R.
"Rotos os laços que a retinham, ela se desprende".
a) -
A separação se dá instantaneamente por brusca transição? Haverá alguma
linha
de demarcação nitidamente traçada entre a vida e a morte?
R.
"Não; a alma se desprende gradualmente, não se escapa como um pássaro
cativo a que se restitua subitamente a liberdade. Aqueles dois estados se tocam
e confundem, de sorte que o Espírito se solta pouco a pouco dos laços que o
prendiam. Estes laços se desatam, não se quebram".
Comentários
de Allan Kardec:
Durante
a vida, o Espírito se acha preso ao corpo pelo seu envoltório semimaterial ou
perispírito. A morte é a destruição do corpo somente, não a desse outro
invólucro, que do corpo se separa quando cessa neste a vida orgânica. A
observação demonstra que, no instante da morte, o desprendimento do perispírito
não se completa subitamente; que, ao contrário, se opera gradualmente e com uma
lentidão muito variável conforme os indivíduos. Em uns é bastante rápido,
podendo dizer-se que o momento da morte é mais ou menos o da libertação.
Em
outros, naqueles, sobretudo cuja vida toda material e sensual, o desprendimento
é muito menos rápido, durando algumas vezes dias, semanas e até meses, o que
não implica existir, no corpo, a menor vitalidade, nem a possibilidade de
volver à vida, mas uma simples afinidade com o Espírito, afinidade que guarda
sempre proporção com a preponderância que, durante a vida, o Espírito deu à
matéria. É, com efeito, racional conceber-se que, quanto mais o Espírito se haja
identificado com a matéria, tanto mais penoso lhe seja separar-se dela; ao
passo que a atividade intelectual e moral, a elevação dos pensamentos operam um
começo de desprendimento, mesmo durante a vida do corpo, de modo que, em
chegando a morte, ele é quase instantâneo. Tal o resultado dos estudos feitos
em todos os indivíduos que se têm podido observar por ocasião da morte. Essas
observações ainda provam que a afinidade persiste entre a alma e o corpo, em
certos indivíduos, é, às vezes, muito penosa, porquanto o Espírito pode
experimentar o horror da decomposição. Este caso, porém, é excepcional e
peculiar a certos gêneros de vida e a certos gêneros de morte. Verifica-se com
alguns suicidas.
Pergunta
162. Após a decapitação, por exemplo, conserva o homem por alguns instantes a
consciência de si mesmo?
R."Não
raro a conserva durante alguns minutos, até que a vida orgânica se tenha
extinguido completamente. Mas, também, quase sempre a apreensão da morte lhe
faz perder aquela consciência antes do momento do suplício".
Comentário
de Allan Kardec: Trata-se aqui da consciência que o supliciado pode ter de si mesmo,
como homem e por intermédio dos órgãos, e não como Espírito. Se não perdeu essa
consciência antes do suplício, pode conservá-la por alguns breves instantes.
Ela, porém, cessa necessariamente com a vida orgânica do cérebro, o que não
quer dizer que o perispírito esteja inteiramente separado do corpo. Ao
contrário: em todos os casos de morte violenta, quando a morte não resulta da
extinção gradual das forças vitais, mais tenazes são os laços que prendem o
corpo ao perispírito e, portanto, mais lento o desprendimento completo.
Pergunta
186. Haverá mundos onde o Espírito, deixando de revestir corpos materiais, só
tenha por envoltório o perispírito?
R.
"Há e mesmo esse envoltório se torna tão etéreo que para vós é como se não existisse. Esse o
estado dos Espíritos puros".
a) -
Parece resultar daí que, entre o estado correspondente às últimas encarnações e
o de
Espírito
puro, não há linha divisória perfeitamente demarcada; não?
R.
"Semelhante demarcação não existe. A diferença entre ume outro estado se
vai apagando pouco a pouco e acaba por ser imperceptível, tal qual se dá com a
noite às primeiras claridades do alvorecer".
Pergunta187.
A substância do perispírito é a mesma em todos os mundos?
R.
"Não; é mais ou menos etérea. Passando de um mundo a outro, o Espírito se
reveste da matéria própria desse outro, operando-se, porém, essa mudança com a
rapidez do relâmpago".
Capítulo
VI
Ensaio
teórico da sensação nos Espíritos
Pergunta
257. O corpo é o instrumento da dor. Se não é a causa primária desta é, pelo
menos, a causa imediata. A alma tem a percepção da dor: essa percepção é o
efeito. A lembrança que da dor a alma conserva pode ser muito penosa, mas não
pode ter ação física. De fato, nem o frio, nem o calor são capazes de
desorganizar os tecidos da alma, que não é suscetível de congelar-se, nem de
queimar-se. Não vemos todos os dias a recordação ou a apreensão de um mal
físico produzirem o efeito desse mal, como se real fora? Não as vemos até
causar a morte?
Toda
gente sabe que aqueles a quem se amputou um membro costumam sentir dor no
membro que lhes falta. Certo que aí não está a sede, ou, sequer, o ponto de
partida da dor. O que há, apenas, é que o cérebro guardou desta a impressão.
Lícito, portanto, será admitir-se que coisa análoga ocorra nos sofrimentos do
Espírito após a morte.
Um
estudo aprofundado do perispírito, que tão importante papel desempenha em todos
os fenômenos espíritas; nas aparições vaporosas ou tangíveis; no estado em que
o Espírito vem a encontrar-se por ocasião da morte; na idéia, que tão
freqüentemente manifesta, de que ainda está vivo; nas situações tão comoventes
que nos revelam os dos suicidas, dos supliciados, dos que se deixaram absorver
pelos gozos materiais; e inúmeros outros fatos, muita luz lançaram sobre esta
questão, dando lugar a explicações que passamos a resumir.
O
perispírito é o laço que à matéria do corpo prende o Espírito, que o tira do
meio ambiente, do fluido universal. Participa ao mesmo tempo da eletricidade,
do fluido magnético e, até certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer
que é a quintessência da matéria. É o princípio da vida orgânica, porém, não o
da vida intelectual, que reside no Espírito. É, além disso, o agente das
sensações exteriores. No corpo, os órgãos, servindo-lhes de condutos, localizam
essas sensações. Destruído o corpo, elas se tornam gerais. Daí o Espírito não
dizer que sofre mais da cabeça do que dos pés, ou vice-versa. Não se confundam,
porém, as sensações do perispírito, que se tornou independente, com as do
corpo. Estas últimas só por termo de comparação as podemos tomar e não por
analogia. Liberto do corpo, o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é
corporal, embora não seja exclusivamente moral, como o remorso, pois que ele se
queixa de frio e calor. Também não sofre mais no inverno do que no verão:
temo-los visto atravessar chamas, sem experimentarem qualquer dor. Nenhuma
impressão lhes causa, consegüintemente, a temperatura. A dor que sentem não é,
pois, uma dor física propriamente dita: é um vago sentimento íntimo, que o
próprio Espírito nem sempre compreende bem, precisamente porque a dor não se
acha localizada e porque não a produzem
agentes exteriores; é mais uma reminiscência do que uma realidade,
reminiscência, porém, igualmente penosa. Algumas vezes, entretanto, há mais do
que isso, como vamos ver. Ensina-nos a experiência que, por ocasião da morte, o
perispírito se desprende mais ou menos lentamente do corpo; que, durante os
primeiros minutos depois da desencarnação, o Espírito não encontra explicação
para a situação em que se acha. Crê não estar morto, por isso que se sente
vivo; vê a um lado o corpo, sabe que lhe pertence, mas não compreende que
esteja separado dele.
Essa
situação dura enquanto haja qualquer ligação entre o corpo e o perispírito.
Disse-nos, certa vez, um suicida: "Não, não estou morto". E
acrescentava: No entanto, sinto os vermes a me roerem. Ora, indubitavelmente,
os vermes não lhe roíam o perispírito e ainda menos o Espírito; roíam-lhe
apenas o corpo. Como, porém, não era completa a separação do corpo e do perispírito,
uma espécie de repercussão moral se produzia, transmitindo ao Espírito o que estava
ocorrendo no corpo. Repercussão talvez não seja o termo próprio, porque pode
induzir à suposição de um efeito muito material. Era antes a visão do que se
passava com o corpo, ao qual ainda o conservava ligado o perispírito, o que lhe
causava a ilusão, que ele tomava por realidade. Assim, pois não haveria no caso
uma reminiscência, porquanto ele não fora, em vida, ruído pelos vermes: havia o
sentimento de um fato da atualidade. Isto mostra que deduções se podem tirar
dos fatos, quando atentamente observados.
Durante
a vida, o corpo recebe impressões exteriores e as transmite ao Espírito por
intermédio do perispírito, que constitui, provavelmente, o que se chama fluido
nervoso. Uma vez morto, o corpo nada mais sente, por já não haver nele
Espírito, nem perispírito. Este, desprendido do corpo, experimenta a sensação,
porém, como já não lhe chega por um conduto limitado, ela se lhe torna geral.
Ora, não sendo o perispírito, realmente, mais do que simples agente de transmissão,
pois que no Espírito é que está a consciência, lógico será deduzir-se que, se pudesse
existir perispírito sem Espírito, aquele nada sentiria, exatamente como um
corpo que morreu. Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse perispírito, seria
inacessível a toda e qualquer sensação
dolorosa. É o que se dá com os Espíritos completamente purificados.
Sabemos
que quanto mais eles se purificam, tanto mais etérea se torna a essência do perispírito,
donde se segue que a influência material diminui à medida que o Espírito
progride, isto é, à medida que o próprio perispírito se torna menos grosseiro.
Mas,
dir-se-á, desde que pelo perispírito é que as sensações agradáveis, da mesma
forma que as desagradáveis, se
transmitem ao Espírito, sendo o Espírito puro inacessível a umas, deve sê-lo
igualmente às outras. Assim é, de fato, com relação às que provêm unicamente da
influência da matéria que conhecemos. O som dos nossos instrumentos, o perfume
das nossas flores nenhuma impressão lhe causam. Entretanto, ele experimenta
sensações íntimas, de um encanto indefinível, das quais idéia alguma podemos
formar, porque, a esse respeito, somos quais cegos de nascença diante a luz.
Sabemos que isso é real; mas, por que meio se produz?
Até
lá não vai a nossa ciência. Sabemos que no Espírito há percepção, sensação,
audição, visão; que essas faculdades são
atributos do ser todo e não, como no homem, de uma parte apenas do ser; mas, de que modo ele as tem?
Ignoramo-lo. Os próprios Espíritos nada nos podem informar sobre isso, por inadequada a
nossa linguagem a exprimir idéias que não possuímos, precisamente como o é, por
falta de termos próprios, a dos selvagens, para traduzir idéias referentes às nossas artes, ciências e
doutrinas filosóficas.
Dizendo
que os Espíritos são inacessíveis às impressões da matéria que conhecemos, referimo-nos aos Espíritos muito elevados,
cujo envoltório etéreo não encontra analogia neste mundo. Outro tanto não
acontece com os de perispírito mais denso, os quais percebem os nossos sons e
odores, não, porém, apenas por uma parte limitada de suas individualidades, conforme
lhes sucedia quando vivos. Pode-se dizer que, neles, as vibrações moleculares
se fazem sentir em todo o ser e lhes chegam assim ao sensorium commune, que é o
próprio Espírito, embora de modo diverso e talvez, também, dando uma impressão diferente, o que modifica
a percepção. Eles ouvem o som da nossa voz, entretanto nos compreendem sem o auxílio
da palavra, somente pela transmissão do pensamento. Em apoio do que dizemos há
o fato de que essa penetração é tanto mais fácil, quanto mais desmaterializado
está o Espírito.
Pelo
que concerne à vista, essa, para o Espírito, independe da luz, qual a temos. A
faculdade de ver é um atributo essencial da alma, para quem a obscuridade não
existe. É, contudo, mais extensa, mais penetrante nas mais purificadas. A alma,
ou o Espírito tem, pois, em si mesma, a faculdade de todas as percepções.
Estas, na vida corpórea, se obliteram pela grosseria dos orgãos do corpo; na
vida extracorpórea, se vão desanuviando, à proporção que o invólucro semimaterial
se eteriza.
Haurido
do meio ambiente, esse invólucro varia de acordo com a natureza dos mundos. Ao passarem de um mundo a outro, os Espíritos
mudam de envoltório, como nós mudamos de roupa, quando passamos do inverno ao
verão, ou do pólo ao equador. Quando vêm visitar-nos, os mais elevados se
revestem do perispírito terrestre e então suas percepções se produzem como no
comum dos Espíritos. Todos, porém, assim os inferiores como os superiores, não ouvem,
nem sentem, senão o que queiram ouvir ou sentir. Não possuindo órgãos
sensitivos, eles podem, livremente, tornar ativas ou nulas suas percepções. Uma
só coisa são obrigados a ouvir - os conselhos dos Espíritos bons. A vista, essa
é sempre ativa; mas, eles podem fazer-se invisíveis uns aos outros. Conforme a
categoria que ocupem, podem ocultar-se dos que lhes são inferiores, porém não
dos que lhes são superiores. Nos primeiros instantes que se seguem à morte, a
visão do Espírito é sempre turbada e confusa. Aclara-se, à medida que ele se desprende,
e pode alcançar a nitidez que tinha durante a vida terrena, independentemente
da possibilidade de penetrar através dos corpos que nos são opacos.
Quanto
à sua extensão através do espaço indefinido, do futuro e do passado, depende do
grau de pureza e de elevação do Espírito. Objetarão, talvez: toda esta teoria
nada tem de
tranqüilizadora.
Pensávamos que, uma vez livres do nosso grosseiro envoltório, instrumento das
nossas dores, não mais sofreríamos e eis nos informais de que ainda sofreremos.
Desta ou daquela forma, será sempre sofrimento. Ah! sim, pode dar-se que
continuemos a sofrer, e muito, e por longo tempo, mas também que deixemos de
sofrer, até mesmo desde o instante em que se nos acabe a vida corporal.
Os
sofrimentos deste mundo independem, algumas vezes, de nós; muito mais vezes,
contudo, são devidos à nossa vontade. Remonte cada um à origem deles e verá que
a maior parte de tais sofrimentos são efeitos de causas que lhe teria sido
possível evitar. Quantos males, quantas enfermidades não deve o homem aos seus
excessos, à sua ambição, numa palavra: às suas paixões? Aquele que sempre
vivesse com sobriedade, que de nada abusasse, que fosse sempre simples nos
gostos e modesto nos desejos, a muitas tribulações se forraria. O mesmo se dá
com o Espírito. Os sofrimentos por que passa são sempre a conseqüência da maneira
por que viveu na Terra. Certo já não sofrerá mais de gota, nem de reumatismo;
no entanto, experimentará outros sofrimentos que nada ficam a dever àqueles. Vimos que seu sofrer
resulta dos laços que ainda o prendem à matéria; que quanto mais livre estiver
da influência desta, ou, por outra, quanto mais desmaterializado se achar,
menos dolorosas sensações experimentará. Ora, está nas suas mãos libertar-se de
tal influência desde a vida atual. Ele tem o livre-arbítrio, tem, por
conseguinte, a faculdade de escolha entre o fazer e o não fazer. Dome suas
paixões animais; não alimente ódio, nem
inveja, nem ciúme, nem orgulho; não se deixe dominar pelo egoísmo;
purifique-se, nutrindo bons sentimentos; pratique o bem; não ligue às coisas
deste mundo importância que não merecem;
e, então, embora revestido do invólucro corporal, já estará depurado, já estará
liberto do jugo da matéria e, quando deixar esse invólucro, não mais lhe
sofrerá a influência. Nenhuma recordação dolorosa lhe advirá dos sofrimentos
físicos que haja padecido; nenhuma impressão desagradável eles deixarão, porque
apenas terão atingido o corpo e não a alma. Sentir-se-á feliz por se haver libertado
deles e a paz da sua consciência o isentará de qualquer sofrimento moral.
Interrogamos,
aos milhares, Espíritos que na Terra
pertenceram a todas as classes da sociedade, ocuparam todas as posições
sociais; estudamo-los em todos os períodos da vida espírita, a partir do
momento em que abandonaram o corpo; acompanhamo-los passo a passo na vida de
além-túmulo, para observar as mudanças que se operavam neles, nas suas idéias, nos
seus sentimentos e, sob esse aspecto, não foram os que aqui se contaram entre
os homens mais vulgares os que nos proporcionaram menos preciosos elementos de
estudo. Ora, notamos sempre que os sofrimentos guardavam relação com o proceder
que eles tiveram e cujas conseqüências experimentavam; que a outra vida é fonte
de inefável ventura para os que seguiram o bom caminho. Deduz-se daí que, aos
que sofrem, isso acontece porque o quiseram; que, portanto, só de si mesmos se
devem queixar, quer no outro mundo, quer neste.
Abraços Fraternos!
Colaboração: Luciana Gomes
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